A questão ecológica

2 fevereiro, 2010

Sobre uma percepção de ecologia como conjunto de conceitos, teorias e práticas que expliquem o funcionamento da Vida, desde sua origem, até os dias atuais e futuros, a pretensão de estabelecer outros modelos de desenvolvimento por via política é que entendo por questão ecológica. Tendo em vista que toda a decisão técnica deve ser tomada de forma política, logo, deve ser discutida de forma política. A questão ecológica deve ter seu debate tão popular quanto novela ou futebol. O futuro de nossos descendentes nós estamos traçando com nossas escolhas de progresso. A tecnocracia capitalista é estéril. Alimenta uma sociedade atônita e insatisfeita. O debate e militância da questão ecológica se fazem necessários, somente assim atingiremos o nível de conscientização, que é consciência mais ação, para concretizarmos transformações estruturais significativas em nossa sociedade global.

Após insucesso esperado da COP15 temos agora a concretização do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, que este ano está sobre forte influência da campanha eleitoreira para presidência do país. Se nem ao menos nas convenções para criarmos alternativas ao atual modelo de crescimento econômico conseguimos realmente nos organizar, o que restará de nossas lutas diárias. Surpreendi-me com a falta de unidade  inerente ao movimento ambientalista. Parece que a ideia de quem realmente comanda os movimentos sociais é que a estrutura não evolua para não ganhar autonomia. Enquanto não conseguirmos descentralizar a atuação de nosso movimento, dificilmente teremos força para agir nos momentos necessários.

A cada dia que passa fico cada vez mais emocionado e esperançoso com nosso destino como sociedade. Os alertas do desequilíbrio ambiental estão por toda a parte, principalmente nos cinemas. Em ensaio sobre o filme Avatar, o professor Milton Mendonça Jr. do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da UFRGS, aborda a questão ecológica de forma pragmática e atual. Analisando o problema da questão populacional deixa-nos o alerta de que teremos que mexer em situações delicadas para encararmos as atuais mudanças ecológicas. A questão não se restringe apenas ao clima, mas sim, sobre todo o nosso modelo de “progresso”. Desde nossas instituições religiosas como econômicas e políticas estão embasadas em uma concepção antropocêntrica, o que gera o grande cisma ecológico.

Não sabemos quantificar o valor econômico da estabilidade da Vida da Terra, ao invés disso, quantificamos sua exploração como lucro e riqueza. Se fosse  uma conta de banco seria como eu retirasse todo meu dinheiro, me endividasse e achasse que estivesse mais rico. Nosso sistema econômico não tem nada a ver com o sistema ecológico da Terra, enquanto um é uma invenção humana o outro é uma manifestação universal. Qual deveria ser subordinado ao outro? Será que não deveríamos rever nosso sistema humano e adequá-lo ao sistema terrestre? Mas para isso teríamos que ter humildade e nos aceitar como mais uma espécie dentre todas as outras vivas. Aprendermos a amar a Terra como nossa parte e não apenas nossa morada. O destino da Terra é o nosso destino, ela não é uma coisa, ela está viva.

Quem tem o poder para transformar o mundo? O que realmente necessita ser transformado? Não seríamos nós mesmos? A humanidade em consenso num equívoco criou o atual modelo de crescimento. E segundo o psicanalista Erich Fromm, o consenso em um erro não faz dele uma verdade. A doença que assola maior parte dos integrantes da sociedade é conhecida em inglês pela sigla TINA (There Is No Alternative) que significa: não há alternativa, ou seja, a alienação completa. Essa percepção de que estamos em um caminho equivocado e não fazemos nada para mudar é um sintoma de doença mental. Logo, aqueles que apesar de terem de viver no atual sistema o negam e o tentam transformar não são os loucos ou doentes, mas sim os sadios.

Sinto que nosso planeta não esteja doente, mas sim a humanidade que está enferma. Gaia, a mãe Terra, sabe ser rígida com seus filhos. Temos projeções que veremos grandes catástrofes ambientais para os próximos anos, tanto que Lovelock em seu último livro, A Vingança de Gaia, trata desta e outras questões. Mas diferente de Lovelock não vejo Gaia tão severa assim, ela apenas está agindo conforme as leis nas quais fora desenvolvida. A lei da causalidade é que está gerando os cataclismas ambientais de nossa era. Extrapolamos o limite de equilíbrio do sistema terrestre e teremos que ser responsáveis por suas consequências. Esta situação se explica pelo conceito de interdependência do homem com a Terra, uma visão holística da relação homem e meio, onde um está interconectado ao outro.

Em tempos de FSM fica a pergunta no ar: Outro mundo é possível? Vejo que se seguirmos fragmentados como movimento social dificilmente veremos os resultados de nossas lutas. Enquanto não houver uma unificação de ideais e um consenso no problema, teremos a dificuldade de passar adiante nossa mensagem. Temos milhares de pessoas que acreditam no FSM, mas outras tantas acham que é apenas motivo para festas e discussão de sonhos. Vamos ver o que sai de concreto do Fórum Social Mundial deste ano, tenho a esperança que existam pessoas capazes de estipular e estimular este outro mundo. Mostrando para toda a sociedade que sim, existem alternativas.

The Power of One

1 fevereiro, 2010

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De Olho em Copenhague

14 dezembro, 2009

O destino de nossa civilização está em discussão na Conferência das Nações Unidas, em Copenhague, Dinamarca, que versa sobre mudanças globais do clima. Neste encontro países ricos e os chamados países em desenvolvimento discutirão acordos para evitar o aumento da temperatura da Terra em mais de 2ºC em relação à era pré-industrial. O principal responsável pelo aquecimento global segundo a comunidade científica é o aumento da emissão de CO2 na atmosfera, gerada principalmente pelo uso de combustíveis fósseis e no caso do Brasil, devido ao grande índice de desmatamento e queimadas.

Será que os líderes mundiais estão prontos para encarar esta que é a maior crise que a humanidade já enfrentou? Muito temos ouvido falar sobre o desenvolvimento sustentável, a preocupação com as gerações futuras e tudo mais. Entretanto a definição em voga de desenvolvimento sustentável não nos diz como atingir este tão esperado futuro ecológico. Vemos isso sim, empresas altamente poluidoras considerando-se sustentáveis por realizarem um programa de separação de resíduos e aulinhas de preservação da água e energia. Para a Terra desenvolvimento sustentável é algo muito mais profundo.

Tendo como base a teoria de Gaia do físico britânico James Lovelock, onde a Terra é um grande organismo vivo, temos uma noção bem diferente de sustentabilidade. Para Gaia, ou o organismo Terra, manter as condições possíveis para a manutenção da vida, um sistema harmônico funciona a milhares de anos. Antes do surgimento das plantas na superfície da Terra a atmosfera quase não possuía oxigênio em sua formação. Somente pela capacidade dos vegetais de absorver CO2 e liberar como resultado de sua fotossíntese o oxigênio é que foi possível para os animais se desenvolverem em terra firme. Temos aí um sistema interconectado, onde o impacto de uma espécie reflete no sistema inteiro.

Com esta percepção de sistema vivo, um desenvolvimento sustentável deveria se ater a questões mais profundas como a resignificação de riqueza e progresso. Lendo o livro Garimpo ou Gestão de Lutzenberger entrei em contato com ideias muito interessantes como a análise de nosso modelo atual de civilização. Medimos nosso progresso e riqueza pelo índice econômico chamado Produto Interno Bruto, ou PIB. Enquanto não mudarmos os parâmetros que nos informam nosso índice de desenvolvimento, teremos a distorcida visão de progresso. O PIB representa a soma (em valores monetários) de todos os bens e serviços finais produzidos numa determinada região num período determinado. Nada nos diz do real estado de conservação da natureza e qualidade de vida dos cidadãos. Como por exemplo, na produção de alumínio, que o Brasil é um grande exportador.

Extraímos bauxita, através da mineração, e para produzir o alumínio necessitamos grandes quantidades de energia, sendo assim, grandes áreas são alagadas na construção de hidrelétricas. Tudo isso para exportar uma matéria prima de baixo valor agregado. Se analisarmos os índices econômicos, como o PIB, o país está mais rico, mas se analisarmos concretamente estamos mais pobres como nação. Quem sai ganhando são os compradores deste alumínio que não tem de arcar com os altos impactos que este sistema produz. Outro exemplo que aprendi com Lutzenberger é o de um acidente aéreo, onde o PIB apenas analisa o fluxo monetário gerado por tal tragédia. Como no caso do acidente da TAM em 2007, os índices econômicos não souberam considerar as perdas qualitativas, as vidas. Ou seja, índices econômicos, como o PIB, não nos dizem nada sobre o real estado de vida dos cidadãos. E podemos até dizer que quanto mais aumenta o PIB, mais diminui nossa qualidade de vida.

Vejo que os líderes mundiais têm de perceber que a economia humana faz parte da economia da Terra. Estes dois sistemas devem estar em harmonia caso contrário estaremos tomando apenas medidas paliativas. Enquanto o sistema humano se baseia em um fluxo linear de materiais, a Terra funciona ciclicamente, ou seja, nós extraímos da natureza, criamos produtos feitos para serem descartados em curto período de tempo, com o uso de energias não renováveis e os descartamos em aterros sanitários ou lixões, enquanto a Terra recicla todo o material e utiliza a energia solar. O sistema humano não é suportável para o sistema terrestre.

Necessitamos de um modelo de desenvolvimento que leve em consideração os bilhões de anos de experiência bem sucedida que a Terra nos apresenta. Não podemos resolver um problema com a mesma lógica que o criou. E é isto que está sendo discutido em Copenhague nesta semana. Mecanismos como o mercado de carbono  não irão solucionar nossos problemas. É como medicar um paciente com câncer cerebral com remédio para dor de cabeça. Temos uma ótima animação que fala sobre este tema, intitulada The Story of Cap and Trade, produzida pela Free Range Studios e o The Story of Stuff Project.

Enquanto isso se vê aqui no estado do Rio Grande do Sul a política seguindo esta lógica mercantilista para lidar com o caso do aquecimento global. A visão de nossos legisladores é a de flexibilização das leis ambientais, como o fim da reserva legal e a diminuição das áreas de preservação permanente. Junto disto temos propostas políticas que focam os mecanismos de captação de carbono, principalmente para empreendimentos de reflorestamento. Necessitamos de algo novo, não será fácil, mas é tempo de sonharmos alto. Temos que ao invés de seguirmos a mesma lógica que causou o atual estado, adotarmos uma nova cosmovisão, onde somos partes integrantes da Terra e não seus donos.

The Story of Cap and Trade

12 dezembro, 2009

Insegurança Alimentar

3 novembro, 2009

É com pesar que chegamos à marca de 1 bilhão de pessoas passando fome no mundo. Em estudo divulgado pela FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nation), somente na América Latina e Caribe, 53 milhões de pessoas sofrem de fome crônica. Este estado mundial é reflexo de nossas escolhas, nosso modelo de desenvolvimento deve ser revisto. A produção de commodities e não a de alimentos é que impulsiona a economia de países como o Brasil.

Em meados dos anos 60 e 70 passamos pela chamada Revolução Verde, com a promessa de aumentar a produtividade e a diminuição do manejo. Sim, aumentamos a produção e trocamos o manejo tradicional por manejos químicos, e hoje vemos, cada vez mais, a dependência dos pequenos e médios agricultores das grandes transnacionais. A biotecnologia, a maquinaria pesada e o uso de fertilizantes e agrotóxicos levou a uma verdadeira crise no meio rural. Uma crise ecológica, que abrange o social e o ambiental.

O vínculo que essa metodologia de cultivo produz é doentio. Como é no caso dos transgênicos, onde o agricultor é convencido que alcançará maior produção e rentabilidade se cultivar monocultura de uma semente modificada geneticamente. O grande problema em questão não é a tecnologia em si, mas sim os efeitos socioambientais que são gerados por este sistema. Em reação a isto, no dia 21 de outubro, foi realizada uma manifestação no centro de Porto Alegre para marcar o dia nacional de luta contra os transgênicos.

A questão da segurança alimentar é de fundamental importância para a estratégia de uma nação. Nosso atual modelo de desenvolvimento agrícola se concentra na produção de grãos para exportação, e não de alimentos para a população. O sistema da agroindústria utiliza grande quantidade de insumos químicos, onde, segundo estudo da consultoria alemã Kleffmann Group, o Brasil já é o maior mercado de agrotóxicos do mundo. Este atual modelo de agricultura não está sendo capaz de resolver o problema da fome crônica no mundo, além de estar causando um novo êxodo rural, condensando as terras nas mãos de grandes corporações transnacionais.

Para resolver o problema temos que adotar outra postura. Já estão sendo desenvolvidas diversas experiências no campo da agricultura ecológica ou regenerativa. Nesse contexto, há uma teoria que traz um novo alento para este modelo de cultura, é a trofobiose. Em estudo feito por José Lutzenberger, as plantas cultivadas em um solo sadio, com vitalidade, não sofrem os mesmo ataques de “pragas”, como no sistema de monocultivo, com o uso de insumos químicos.

Essa teoria propõe que os aditivos químicos, tais como os adubos (sais solúveis concentrados) e os agrotóxicos, alteram a síntese de proteínas das plantas, causando uma desarmonia no metabolismo do vegetal. Sendo assim, elas se tornam doentes e carregadas de aminoácidos livres, açúcares e nitratos. Estes são os alimentos preferidos de fungos, bactérias, ácaros, nematóides e insetos. Em um sistema agrícola manejado de forma ecológica o solo possui fundamental importância. Na agricultura moderna o solo é apenas um suporte para a cultura produtiva.

Técnicas simples como adubação verde, que consiste no cultivo de plantas – gramíneas, leguminosas, ervas nativas, arbustos ou árvores – que enriquecem o solo com nitrogênio, fósforo, potássio, cálcio, enxofre e micronutrientes; mais a adubação mineral com produtos de solubilidade lenta, como pó de rochas e restos de mineração, aliados à adubação orgânica – que é o uso de esterco curtido, compostos fermentados, cobertura morta –; junto com o uso de defensivos naturais, formam um sistema de cultivo que não pode ser patenteado por nenhuma grande, média ou pequena empresa. Tais técnicas podem representar a liberdade do agricultor. Além de cooperar com a Natureza, tais métodos podem ser uma alternativa para o pequeno e médio produtor se manter no campo de forma justa e digna, e assim cultivar alimentos saudáveis para a população mundial.

Uma vida pela ecologia

14 setembro, 2009

Ao lermos ou ouvirmos falar da história de vida do ecologista José Lutzenberger nos espantamos com sua abnegação pela luta da questão ecológica. Após anos como alto executivo da empresa multinacional BASF, produtora de adubos químicos, Lutzenberger, no auge dos seus 45 anos, abdicou de toda a estabilidade profissional para se dedicar exclusivamente à causa ecológica. Mas o que seria esta causa ecológica? Para a grande maioria da sociedade a questão ecológica está restrita a preservação da fauna e flora, onde se tem uma percepção bastante equivocada do que realmente é a ecologia defendida por Lutzenberger. Sim, ecologia não é apenas conservação da natureza.

Seguindo os ensinamentos de Lutzenberger, entramos em contato com uma noção de ecologia mais profunda do que a ecologia que nos ensinam nas escolas e faculdades. Esta corrente de ecologia chega a alcançar um grau de escola filosófica, pois aborda toda uma cosmovisão da existência, ou seja, ela possui uma explicação própria de como a vida se manifesta. A partir desta ótica, em meus estudos sobre a ecologia, pude chegar à conclusão que Lutz lutava por duas coisas fundamentais: a organização do sistema produtivo e a distribuição da renda gerada por ele. Esta é a causa ecológica por uma ótica mais profunda. Entretanto, para conseguir chegar à essência dessa questão se faz necessário a utilização da visão sistêmica da vida, visto que através de uma análise fragmentada da realidade nunca conseguiremos conceber o todo. Tal como se refere Aristóteles: “O inteiro é mais que a simples soma de suas partes”. O pensamento mecanicista, desencadeado pelas descobertas de Descartes, faz acreditar que a natureza deva também ser fragmentada para sua compreensão, mas novas descobertas no âmbito da biologia nos mostram como a Natureza toda está interconectada.

Existem pessoas que dedicam suas vidas a um futuro melhor para a vida na Terra. Usufruir do caldo cultural formado pelo conhecimento de pensadores como os físicos Fritjof Capra, Vandana Shiva e Wangari Maathai, a ganhadora do prêmio Nobel, representa uma oportunidade para cada um de nós interferir para deter o comportamento suicida que a humanidade adotou com seu capitalismo neoliberal. Na sociedade do consumo pelo consumo, onde Ter significa mais do que Ser, temos a distorcida visão que a vida é uma competição, e que o mais forte é o vitorioso. Mas a vida é uma sinfonia estruturada de forma cooperativa, onde os mais adaptados ao meio sobreviverão, e evoluirão aqueles que estiverem em harmonia com o todo.

Para avançar em um campo tão complexo como esse, se faz necessário uma sistematização do que já foi dito e escrito pelo ecologista José Lutzenberger. Em suas palestras e conferências, estão a coluna vertebral de uma visão filosófica que o homem moderno ainda não se atreveu a vivenciar. A percepção de que a Natureza se encontra no íntimo de cada um e ao mesmo tempo em todo o Universo é um dos ensinamentos que essa visão nos traz. É um momento de redescoberta de nós mesmos, para enfim nos sentimos partes integrantes de algo maior.

Lutzenberger

12 setembro, 2009

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Cidadania de Gaia

24 agosto, 2009

Seguindo a tradição política dos gregos, boa parcela das sociedades contemporâneas adotam o sistema democrático de governo, onde cada integrante dessa sociedade possui o direito de voto e a capacidade de se candidatar a um cargo público. O fazer político na Grécia antiga, no entanto, abrangia grande parte da sociedade. Estava mais próximo da pessoa comum, e em grandes assembléias focava os direitos de cada indivíduo perante a coletividade. Herdamos os conceitos, mas não o comportamento político dos gregos. Hoje, o que vemos aqui, no Brasil, é a construção de políticas públicas em salas fechadas, com meia dúzia decidindo nosso rumo. E, na outra margem, cabe questionar onde foi que colocamos nossos deveres? Vejo que de fato esquecemos dos nossos deveres como cidadãos. Não podemos agir como indivíduos desconexos, tendo a distorcida percepção que a “minha ação” não afetará o coletivo.

Os gregos também nos deixaram de herança a concepção de Gaia, a deusa Mãe primordial, uma das primeiras divindades a habitar o Olimpo, geradora de todos os deuses, a deusa-terra. E dessa visão mítica, o renomado cientista e ambientalista James Lovelock elaborou a teoria de Gaia, que estabelece a íntima integração entre a biosfera e os componentes físicos da Terra, de modo a formar um complexo sistema que mantêm as condições climáticas e biogeoquímicas, preferivelmente em homeostase. Em outras palavras, significa que o sistema regula seu ambiente interno de modo a manter uma condição estável, mediante múltiplos ajustes de equilíbrio dinâmico controlados por mecanismos de regulação interrelacionados. A vida na Terra é possível devida uma complexa interação entre todos os componentes existentes no planeta. É a ideia de que nosso planeta é um superorganismo que, de certa maneira, está “vivo”.

Em seu artigo “Gaia”, o ecologista gaúcho José Lutzenberger explica a interdependência dos animais com as plantas. Como no ciclo da respiração e no da fotossíntese, que são intimamente relacionados. Assim refere Lutzenberger em seu artigo: “As árvores, florestas, pradarias, os banhados, as algas microscópicas dos oceanos, são órgãos nossos, tão nossos quanto nosso pulmão, coração, fígado ou baço. Poderíamos chamá-los de “nossos órgãos externos”, enquanto estes últimos são nossos órgãos internos. Mas nós somos órgãos externos delas! O Organismo Maior é um só.” Esta é uma abordagem sistêmica da existência da vida. A realidade está toda interconectada, onde a espécie humana é apenas um fio dessa rede, tão importantes quanto os plânctons dos oceanos. A trama que propicia a existência de vida na Terra é complexa e tênue, e está ameaçada pelo comportamento de um de seus fios, a humanidade. A situação é dramática: criamos um sistema humano que não é suportável pelo sistema terrestre, do qual fazemos parte, ameaçando a suportabilidade do planeta Terra, que está em seu limite.

Temos previsões que são catastróficas para as próximas gerações. Pela percepção de Lovelock, até o final do século o aquecimento global fará com que na América do Norte e Europa zonas de temperaturas se aqueçam quase 8 graus Celsius! Diminuir a poluição dos gases responsáveis pelo efeito estufa não vai fazer muita diferença a esta altura, e boa parte do que é considerado desenvolvimento sustentável não passa de um truque para tirar proveito do desastre. O cenário exige, portanto, o necessário surgimento de uma nova concepção de cidadania. Uma visão que não seja antropocêntrica, a qual julga que homem deve ter uma função central e exclusiva nesse sistema vivo. Essa nova visão seria construída pela ação dos indivíduos em grupos sociais organizados. Mostrando que além dos direitos políticos herdados dos gregos, desenvolvemos nossos deveres políticos. Deveres construídos com base na noção sistêmica da vida. Uma concepção ecológica, manifestando toda a importância do coletivo para os indivíduos.

Mother

15 agosto, 2009

One Earth.org

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Obsolescência Planejada

10 agosto, 2009

Obsolescência é a condição que ocorre a um produto que deixa de ser útil, mesmo estando em perfeito estado de funcionamento. Ou seja, são produtos deliberadamente projetados para deixar de funcionar em um curto espaço de tempo. São as porcarias industrializadas que consumimos em nosso dia-a-dia crentes que estamos adquirindo produtos de uma boa qualidade. Entretanto, a qualidade deles são boas para quem os produz, pois, esses produtos são fabricados visando a minimização dos custos e a maximização dos lucros. Por isso os produtos precisam ser baratos e frágeis, tendo sua obsolescência planejada para serem trocados seguidamente. Sendo caros, as pessoas não aceitariam sua má qualidade.

Com o avanço da tecnologia os produtos eletrônicos, como o celular, evoluíram em desing e funcionalidades. Agora esses pequenos aparelhos, dos quais somos atualmente dependentes, estão sendo projetados para deixar de funcionar em poucos anos, ou até menos. Cheguei a conclusão que os celulares não estragam mais, eles são produzidos pelo sistema da obsolescência planejada, sendo assim, são projetados para “estragar” em um determinado prazo. Imagina toda essas campanhas publicitárias para vender novos aparelhos de celular se os aparelhos durassem anos como era antigamente. Tem pessoas que trocam de celular de acordo com a moda. É somente a empresa lançar um novo modelo que este consumidor já se desfaz do seu aparelho “antigo” e adquire um novo.

Você já pensou como os objetos e aparelhos hoje em dia estragam ainda novinhos? Antigamente, um fogão, uma geladeira, uma cama, eram para toda a vida. Hoje estamos infestados de produtos que são estrategicamente fabricados para serem rapidamente descartados. Para mim isso se chama porcaria. A inteligência humana ao invés de desenvolver produtos duradouros, que utilizem poucos bens naturais e energia, faz exatamente o oposto. A geneosidade da tecnologia foi utilizada para manter um sistema de consumo e descarte exacerbado. Realmente estamos esquecendo de perceber que o planeta Terra é um sistema finito. Não se pode extrair seus bens naturais para criar produtos que serão descartados em menos de um ano.

Segundo estudo feito pela norte americana Annie Leonard, produtora da animação A História das Coisas, 99% dos produtos industrializados nos Estado Unidos são descartados em menos de seis meses. Nesta animação temos a nítida percepção de que nosso sistema de produção está errado. A cadeia produtiva atualmente é linear. Extrai o máximo dos bens naturais e causa um grave impacto no descarte dos bens de consumo. Nós processamos a Natureza e a transformamos em porcarias. O sistema funciona assim há algumas gerações apenas. Á poucos anos, os carros duravam décadas e os eletrodomésticos eram para uma vida inteira. E agora tenho que comprar um novo celular a cada ano. Algo está realmente errado. Mas onde está o erro deste sistema?

Assim como na política, que na teoria é do povo para o povo, no mercado é a mesma situação. Enquanto os consumidores não se organizarem e reivindicarem por produtos de qualidade nada conquistaremos. O poder está na mão do cidadão, se todos nós nos manifestarmos contra esse sistema que está exaurindo o planeta conquistaremos nossos direitos. Está na constituição brasileira no Art. 225: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.” Todos temos o dever de defender e preservar o meio ambiente. Essa não é uma tarefa apenas de ambientalistas e ecologista, mas sim de toda a civilização.

A História das Coisas

8 agosto, 2009

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Lixo: Um Problema?

14 julho, 2009

A concepção de lixo que temos está realmente equivocada. O lixo é um problema atualmente, mas ele não é o problema. O lixo, ou resíduo sólido urbano, é resultante da atividade doméstica e comercial das aglomerações urbanas. A sua composição varia de população para população, dependendo da situação sócio-econômica e das condições e hábitos de vida de cada um. Podemos encontrar no lixo atualmente: matéria orgânica, papel, plástico, vidro, metais e outros, como óleo de cozinha e resíduos de informática. Em uma percepção histórica nota-se que o lixo é um problema moderno. Nos anos de 1930 não havia lixo, nem existia plástico! É o nosso sistema de sociedade, a do consumo desenfreado, que gerou essa problemática do lixo urbano. Hoje em dia grandes empresas estão com uma campanha de consumo consciente. Acredito que se as pessoas forem realmente conscientes pensariam antes de comprar hortifrutigranjeiros nos supermercados. Aqui em Porto Alegre temos feiras de bairros fabulosas. E nem me refiro as feira ecológicas, que além de possuir a benesse do produto vir direto do produtor local, reduzindo o consumo de combustíveis no deslocamento do alimento, os produtos ecológicos possuem uma filosofia de respeito e amor pela terra. Certa tarde fui à feira do Menino Deus, onde moro, e comprei 2 kg de batatas selecionadas por R$ 2,50. No supermercado o Kg está R$ 2,50. Vale à pena rever nossos conceitos de consumo, não somente economicamente, mas principalmente por questões de saúde, tanto do campo quanto da cidade. Saúde social e ambiental também estão incluídos nesses benefícios das economias locais.

O problema do lixo não pode ser visto somente pela ótica end-of-pipe, que enxerga somente a situação no final da cadeia, sendo assim, investimos muito dinheiro, tempo e educação na questão da reciclagem, e não temos um sistema que funcione tanto social como ambientalmente em nossa cidade. Ao contrário, ao mesmo tempo em que existe uma forte campanha para fazermos a separação do lixo em nossas residências, há uma imensa pressão contra os catadores que sobrevivem deste nosso descarte. E nossa situação de miséria social mostra como o que para uns é um problema, para outros é o sustento. Minha opinião sobre o lixo é a de que temos que rever nosso padrão de consumo. E remodelar o sistema de produção, para gerar menos resíduos nos produtos industrializados. Para isso, é necessária uma conscientização das pessoas que consomem. Devemos parar de acreditar que quanto mais eu consumo mais feliz eu posso ser. O lixo não é o problema, a falta de conscientização humana que é o responsável pela geração de tanta porcaria. Como Lutzenberger disse: “O lixo na realidade não é lixo. Não existe coisa ruim, só existe coisa boa no lugar errado. O lixo é matéria prima. Se nós separarmos as coisas na origem, aquilo deixa de ser porcaria e se transforma em mercadoria”.

O Lixo Nosso de Cada Dia

12 julho, 2009

Faço uma pequena retrospectiva da história do Movimento Ecológico Gaúcho. Tudo começou nos idos de 1940 com Henrique Luiz Roessler, em São Leopoldo, Rio Grande do Sul. Roessler era um gaúcho que lutava ativamente contra a caça ilegal de animais silvestres. Atuando fortemente com propaganda de educação ecológica, ele é considerado o primeiro ecologista do Brasil. Posterior a ele, e por sua influência, Augusto Carneiro tornou-se também um ecologista. Advogado que é funcionário público, atualmente com 86 anos, foi responsável por grande parte do sucesso de Lutzenberger. Era o Carneiro que tratava dos problemas burocráticos para Lutz. Foi o verdadeiro mentor da AGAPAN (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural), com ajuda de Lutzenberger. O Carneiro e o Lutz desencadearam uma evolução na luta ecológica, não só brasileira, mas também mundial. Isso por volta dos anos 70 e 80. Já nos anos 90 houve a tomada da AGAPAN por uma figura controvertida chamada Giovane Gregol. A partir daí, a AGAPAN deixa de ser a referência de entidade ecológica, como era quando Lutzenberger estava na direção.

E hoje, já no século XXI, o movimento ecológico está em uma fase latente. Tem muita energia em potencial, resultado de indignação reprimida. O caos ecológico abrange o econômico, o social e o político. Sem uma conscientização, que a meu ver é consciência mais ação, o movimento ecológico continuará latente e não manifesto. É nessa conjuntura que estou inserido no Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente (Mogdema). E uma de minhas proposições é a elaboração do Eco Manifesto Gaúcho. Pois, um movimento social, para atingir seus objetivos, primeiro tem que saber claramente quais são seus objetivos, além de sistematizar uma metodologia de ação a longo prazo. Todas as terças-feiras Mogdema se reúne. Tenho muita esperança nesse movimento, mas minha esperança é pró-ativa. Eu faço e depois pergunto se concordam, e o que propõem caso não concordem. Espero que funcione assim. A sociedade está mesmo um caos. O sistema de valores e o comportamento são pautados por uma patologia que chamo de Demência do Ter. Tudo está focado no consumo. Desde sonhos, sonho de consumo, até pessoas, minha namorada, meu filho. Daí que a função de um movimento social, como o Mogdema, é de unificar as pessoas, criar uma coesão e assim gerar uma energia gregária capaz de promover uma verdadeira evolução social. Uma evolução pautada na compreensão de que agir utilizando a razão, a emoção, e a intuição de forma equilibrada só trará resultados mais sábios. É uma visão holística do ser humano. Holos do grego todo. Uma percepção sistêmica da realidade. Totalmente naturalista, que atribui à lei da causalidade uma importância fundamental. O que impulsiona tudo isso é a indignação, e o que mantém acesa a chama da batalha é o Amor.

Legado Lutzenberger

19 maio, 2009

Neste ano de 2009, no dia 14 de maio, lembramos o sétimo ano de falecimento do estimado ecologista gaúcho José Lutzenberger. Temido por uns e amado por muitos, Lutzenberger espalhou pelo mundo um ideal de amor e respeito pela Natureza. Divulgando a teoria de Gaia, que enxerga a Terra como um ser vivo, uma visão holística da realidade que nos circunda. De forma muito pragmática, Lutz, como seus amigos o chamavam, elucidou seu projeto de usufruir a Natureza de forma consciente e sustentável. Seus ensinamentos iam da biologia para a filosofia de forma a perceber-se as conexões ocultas que existem entre a ciência que estuda a vida e a que a explica. Em sua abordagem deixava claro assuntos aparentemente complexos como os ciclos de vida dos solos, tema que adorava e em que tinha especialização científica. Entretanto, Lutz não era um cientista. Era um artista. Para ele, ter a capacidade de aprender com a Natureza constituía uma verdadeira arte. E não apenas quantificá-la, qualificá-la e registrá-la. Lutz dialogava com a Natureza, tirava seus ensinamentos pela observação atenta da vida. E esse é um ensinamento que está ultrapassando gerações. Desde seu falecimento em 2002 muitas coisas aconteceram. As previsões catastróficas de Lutzenberger se provaram verdadeiras, o consumismo tomou conta da economia e do comportamento da humanidade. A massificação dos sonhos, medos e desejos da população estão causando a maior degradação ambiental da história da humanidade. A crença no progresso ilimitado, que alguns chamam de desenvolvimento, é o fator principal para o atual estado deplorável em que nos encontramos. Existe o caminho da evolução e o da degradação. A humanidade escolheu o segundo.

Lutzenberger defendia a agroecologia como forma de produção sustentável de alimentos para toda a humanidade. E como nos princípios da agroecologia, em um solo sem vitalidade a Natureza vai ter uma grande dificuldade para se restaurar. Por isso a agroecologia, ou agricultura ecológica, também é chamada de agricultura regenerativa. Ela pretende restaurar a saúde do solo para que dali surja uma biodiversidade que tenha a capacidade da vida se auto-sustentar. E foi exatamente isso que Lutzenberger fez no movimento ecologista. Ele preparou o solo para que os posteriores ecologistas pudessem brotar em um terreno com maior vitalidade e com maior força. O legado de Lutzenberger se mantém vivo na instituição que ele criou, a Fundação Gaia, mas também, principalmente, nas cabeças e ações de nobres militantes fortemente influenciados pelo amor que Lutz tinha pela vida. Sua memória e seus feitos deveriam ser preservados para que as futuras gerações não corressem o risco de perderem está história que pode mudar completamente o rumo da nossa civilização.

O Legado Lutzenberger

15 maio, 2009

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A grande questão do momento é: “Outro mundo é possível?”. Temos muita gente comprovando cientificamente que sim. Avanços na agricultura ecológica com a consolidação dos ensinamentos sobre os ciclos naturais, a percepção do solo como organismo vivo e dinâmico, o entendimento holístico da agricultura e a consciência da responsabilidade em trazer estabilidade social no meio rural. A agricultura ecológica é uma ciência. E não lirismo e poesia, como dizem para desacreditá-la. Um sistema produtivo agroecológico é capaz de ser mais produtivo e sustentável que o atual sistema de produção moderno. Eliminando o uso de insumos tóxicos e de maquinarias pesadas. Agora, acreditar e ter esperança nestas alternativas é uma questão de escolha.

Mas o fato é o seguinte: esse mundo que viemos transformando nos últimos 50 anos, é impossível. O colapso econômico já demonstrou claramente isto. O sistema capitalista como se apresenta falhou, a falácia de que o consumismo é capaz de representar a qualidade de vida da sociedade se demonstrou uma tragédia. Mas a real crise se mostrará caso não mudemos nossa crença no progresso ilimitado. Não há mais como sustentar a ignorância de se tratar os bens naturais como fonte de recursos ilimitados. Quem defende esse tipo de pensamento é mesquinho a ponto de reduzir drasticamente a vida para satisfazer seus interesses pessoais. Mas o absurdo maior ocorre no âmbito político. Em sua definição básica, a Política seria a Arte de governar uma população. Exatamente, uma Arte. E na nossa situação, a menos que seja circense, de Arte não tem nada. Será realmente possível governar um estado virtualmente? Quer dizer que com e-mails e telefonemas se é capaz de gerir um estado?

É em um momento como esse que o Ecologismo vem ganhando força como movimento político em todo o país. Uma visão de movimento político ecológico, que visa propor alternativas ao sistema de sociedade vigente. O Ecologismo teve como principais intelectuais e ativistas Henrique Luiz Roessler, Augusto Carneiro e José Lutzenberger. Destes somente Carneiro está vivo. Mas política como Arte, tendo como embasamento uma ética profunda, que propicie a evolução da vida e não sua degradação. No sistema atual, por não ser “pragmática”, a ética é deixada de lado. Vejo o Ecologismo como movimento político que traz uma nova esperança para a humanidade. Pois, sem esperança de que outro mundo realmente é possível, estaremos lutando em vão.

Atualmente, a crise financeira está no centro de todas as discussões nos meios de comunicação. Mas que crise é esta? Uma ótica pouco utilizada para a análise dessa crise, apesar de já estarmos no século XXI, é a visão ambiental. E não me refiro à qualidade da água, do ar ou o aquecimento global, mas sim do paradigma de desenvolvimento em que vivemos. Esta é uma crise global sistêmica, com influências no âmbito social, econômico e político. É o choque do desenvolvimento ilimitado com o do desenvolvimento sustentável.

A crença no progresso ilimitado, que busca o aumento do consumo, mobiliza toda a economia para a geração de demanda. Para alguns a cidadania e a inclusão social se constata através do poder de consumo da população. Ao invés de analisar a existência de um sistema de saúde e educação dignas, seres humanos são analisados através do seu nível de consumo. Essa visão de mundo, calcada em valores individualista e materialista, é a que gera as raízes da crise ambiental global. Nosso sistema de produção é linear, tendo a crença que os bens naturais são ilimitados e que o espaço para onde vão os resíduos no final do sistema seja também ilimitado. Enquanto o mundo pede que para ser sustentável nossa sociedade reduza o padrão de consumo, através do desenvolvimento de uma nova consciência ecológica, os incentivos gerados pela sociedade levam à situação oposta.

Neste momento de crise econômica e financeira, fica muito claro a insustentabilidade do modelo de desenvolvimento que estamos tomando. Mas, a realidade está vindo à tona, e a crença do progresso infinito e ilimitado deve ser revista. Um dos intelectuais gaúcho que aborda essa questão, já na década de ‘80, foi o ecologista José Lutzenberger. O autor, em seu livro Fim do futuro?, expõe sua lúcida visão da realidade desenvolvimentista que nosso país já possuía naquela época. E, neste momento, estamos vivendo a utopia tecnocrata, que é a apontada por muitos como a culpada pela crise em que estamos.

Devido ao encadeamento dos eventos negativos desde a eclosão da crise em setembro do ano passado, podemos ver que esse nosso sistema de sociedade é completamente insustentável. Como nota-se agora na falta de crédito e na “estatização” dos bancos dos EUA, como o Citibank. O mundo inteiro está em crise conjuntural, mas na realidade o sistema no qual nosso modo de produção está baseado é que está em decadência estrutural.

Para chegarmos a alguma alternativa, temos de nos informar, entender este momento histórico, pois esta pode ser uma oportunidade para desenvolvermos e implementarmos um novo modelo de sociedade, onde a democracia funcione “democraticamente”. Foi com esse intuito que o Mogdema – Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente – realizou em Porto Alegre, no dia 10 de março, no auditório do Semapi, o seminário “Crise Ambiental: Social, Econômica e Política”, que proporcionou embasamento para discutir e tomar atitudes efetivas para provar que um outro mundo é possível.

Envolvimento Sustentável

10 dezembro, 2008

Grandes mudanças estão ocorrendo em nossa sociedade, para todos os lados nos deparamos com campanhas de conscientização em prol do meio ambiente. Grandes e pequenas empresas estão investindo na questão ambiental. Isto é algo extremamente bom, mas será que é realmente eficaz? O que dá para se notar é a preocupação com a Natureza, porém, há pouca ação efetiva. Nosso estado é exemplo em se tratando de lutas ambientais. Foi aqui que o movimento ecológico travou imensas batalhas visando à mudança dos padrões desenvolvimentistas que degradavam nosso ecossistema. Os principais personagens deste movimento foram José Lutzenberger e Augusto Carneiro que, junto com outros nobres militantes criaram a AGAPAN nos anos 70 e 80. Outro momento marcante deste movimento ocorreu com a Eco 92, onde foram criadas severas leis, redes e fóruns tendo em vista a preservação e a manutenção do ecossistema.

E agora, qual é a cara do movimento ambientalista? Muitos acham que após a morte de Lutzenberger a força do movimento ficou apagada. Pode ser que isto seja verdade, pois não se vê mais efetivos atos que tomem um espaço na mídia como foi na época do Lutz. Há quem diga que agora seja somente um bando de baderneiros que não sabem realmente do que estão falando. É triste isso, mas na realidade temos diversos ambientalistas genuínos fazendo seu trabalho no anonimato, sem que os holofotes e as câmeras os foquem. É neste cenário que surgiu um movimento que pretende mostrar que os militantes e a sociedade como um todo estão indignados com o que estão fazendo com a Natureza que ainda existe em nosso estado. Teremos um veículo onde se expressar e onde poderemos juntar forças para impedir certas barbaridades que ocorrem em nossa terra. Este movimento se intitula Mogdema, Movimento Gaúcho em Defesa do Meio Ambiente. Reúne cidadãos, ONG’s, movimentos sociais do campo e da cidade, sindicatos, representantes de classe, lideranças religiosas, estudantes, professores e pesquisadores. Visa ações conjuntas que fortaleçam as políticas públicas em defesa da Natureza, promovendo o debate e a luta socioambiental, propondo a reflexão crítica ao modelo de desenvolvimento predatório hegemônico, e construindo as bases sociais para um novo modelo com sustentabilidade ambiental. É disso que estamos necessitando, um verdadeiro envolvimento sustentável.

Em nossa sociedade de consumo atual, baseada no poder do capital, imperam os valores materialista e utilitarista, onde os meios naturais somente possuem valor quando suscetíveis de avaliação monetária, sendo vistos apenas como reservatório de recursos produtivos, como conjunto de valores econômicos definidos pelo mercado.  O sistema captalista, em sua ganância da produção industrial, impulsinodo em produzir mais em menos tempo sendo esta a base da lucratividade das empresas e a medida da competitividade do sistema econômico, gera os grandes conflitos entre a preservação da natureza e o avanço tecnológico. Isto pode-se notar, mais específicamente, no setor químico, na produção e no consumo de material sintético, nos derivados do petróleo, nos insumos agrícolas, todos destinados a diminuir o tempo de produção e comportando um alto risco de degradação do meio ambiente e da saúde humana. Foi no sistema capitalista que surgiu o movimento ambientalista, sendo assim, eles estão intríssecamente conectados. Ao que me parece, os ideais do ambientalismo de um sistema produtivo consciente e racional vai encontra à visão capitalista de consumo desenfreado. A partir desta premissa, podemos constatar um ponto chave: apenas uma vertente pode existir. A consciência ambiental já permeia a nossa sociedade, não há mais como evitar seus efeitos. Uma nova visão onde podemos notar as interconexões entre todos os sistemas da sociedade já se mostra como algo normal, sendo assim, a preocupação dos ambientalistas em criticar o sistema capitalista como grande fator que nos levou a crise atual se mostra algo muito plausível. O capitalismo é um sistema vivo e tem a capacidade de se auto-regular. Parando para pensar, o ambientalismo pode não ser anti-capitalista, mas sim uma evolução do capitalismo. Porém, uma característica do capitalismo é absorver os movimentos que tentam mudá-lo de alguma forma. Pode ser que o ambientalismo englobe o capitalismo, mas o oposto também é válido.

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